Aqui há uns dias, uma pessoa conhecida dizia-me lamurienta
que levava uma “vida de cão” desde
há um par de anos, quando as coisas começaram a descambar porque ficou sem
emprego, as contas começaram a ficar por pagar, as dívidas acumularam-se e
agora está “com a corda ao pescoço”.
Mas antes que o “rosário de amarguras” tivesse sido
desfiado, ainda tive tempo para lhe dizer:
- Mas isso é óptimo! Levas uma vida boa, então…
Imagina o que fui dizer! Devia estar a gozar com ela, pelos
vistos, e dizia-me sua amiga… Ainda
consegui fazer uma pergunta:
- Diz-me, de cão “vadio” ou de “companhia”?
Ao que ela vacilou a responder, "vermelha que nem um tomate" e contrapôs com outra
pergunta:
- Porquê?
Aí, foi a minha “deixa”, para lhe explicar o meu ponto de
vista, eheh…
Havias de ver a cara dela! As expressões que fazia, à medida
que eu falava e exemplificava. Só assistindo mesmo! Dava uma comédia.
Por isso mesmo, me apeteceu hoje escrever sobre o assunto e
caso queiras comentar no final, agradeço.
Voltando ao episódio, perguntei se podia explicar-lhe porque
achei que ela tinha uma boa vida, ao dizer que leva uma “vida de cão”.
- Diz lá, então, retrucou desconfiada.
- Ora, primeiro, porque que eu saiba, a vida de cão não é
assim tão má… Nem mesmo a dos cães vadios, pensa lá.
- O que é que tem uma coisa a ver com a outra, quis ela
saber.
Muito fácil: expliquei. Se olhares para os cães , eles têm
uma vida invejável, em muitos aspectos:
·
Primeiro, não se stressam com horários a
cumprir.
·
Segundo, entregam-se ao lazer, sem preocupações
de qualquer índole…
·
Terceiro, dormem quando querem…
E depois, continuei:
· - Os cães de companhia têm comida servida a horas
e um docinho de vez em quando, que o dono lhe dá.
- O que é que eles exigem? Nada…
- Do que é que eles precisam? De umas festinhas pelo pêlo, para se sentirem bem.
- O que é que eles fazem? Retribuem com fidelidade os carinhos e os cuidados que recebem.
Aí, a minha amiga afinou. Pois é, estás a comparar-me com os
cães… Achas bem? Perguntou ela :)
Claro que sim, respondi. Tu é que disseste que levas uma vida
de cão, certo?
Então, estou a tentar abrir-te os olhos. Para que medites na
tua situação que, afinal, é fruto do que fizeste até agora e que, se comparada
com a vida de cão que dizes ter, não é assim tão má… Eles, os cães, por
natureza, também não trabalham…
E acrescentei: - até mesmo os cães sem dono, chamados
vadios, levam uma vida espetacular, quanto a mim, já reparaste?
Bem, a cara dela mudava de expressão a todo o momento. Até
corada ficou. Mas eu não estive nem preocupada.
Detesto ter de ouvir uma série de lamúrias cada vez que por
uma questão de cortesia pergunto a alguém, em género de cumprimento “como está”.
Tenho treinado muito para deixar de fazer esta pergunta, confesso, mas às vezes
sai e pronto: apanho por tabela.
Continuando, fui-lhe dizendo:
- Já viste que até os cães vadios não têm “vida de cão”, no
sentido ruim que tu lhe atribuis? Vê como eles se distinguem dos outros,
chamados de companhia, pela liberdade que têm… Não estão “presos” a um espaço,
percorrem sem destino os caminhos mais variados. Claro que, sem o conforto
material e a segurança dos seus irmãos “de companhia”, eles estão mais sujeitos
aos maus tratos dos humanos sem escrúpulos, às intempéries e à incerteza de uma
refeição decente, a horas certas, em qualquer caixote do lixo bem abastecido…
- Repara – continuei – que eles são livres. Agora
responde-me, em qual das categorias estás neste momento?
Bem, se tu visses, a reação de escândalo da minha amiga… Ficou
possessa durante uns momentos.
Mas entre um chazinho e mais 2 dedos de conversa, lá
consegui fazer-lhe ver que a vida de cão não é assim tão má como pintam e que não
devem “pagar as favas” por tudo o que de ruim acontece na vida de algumas
pessoas.
Tentei fazer-lhe ver que se ela considera assim tão má a
circunstância em que está neste momento, só a ela se deve, porque apenas ela
tem a capacidade para mudá-la e dar a volta por cima, não achas?
Perante a situação de desemprego em que se encontra e sem perspectivas de emprego, devido à crise que Portugal travessa neste momento – vim de férias 8 dias, falei-lhe em trabalhar
em qualquer lugar e ganhar dinheiro com a Internet, tal como eu comecei há
pouco a fazer, e tantos outros já fazem.
Diz que vai pensar no assunto: não se vê “presa” em casa,
habituada como está a sair. Ainda hoje mantém o mesmo ritual, mesmo não estando
a trabalhar. Como o subsídio de desemprego está garantido durante 2 anos…
E depois queixam-se que levam vida de cão… Eu concordo. Levam sim mas é uma vida de luxo, pois
sem trabalharem, ainda têm casa, comem e bebem!
São opções. Cada qual toma as suas. Por isso mesmo, nada de
deitar culpas ao sistema.
Quanto a mim, sinto-me mais útil fazendo algo que gosto.
Comecei, tal como muitos outros, por aqui. Que é exactamente
por onde também tu deves começar, caso estejas farto de levar uma vida de cão…
Aguardo por ti deste lado,
Até já.
Maria Paula